O vôo da borboleta

Postado por Thiago de Paula On 12:36

Já me sinto tolo por sentir-me tão criança, quero-me rapidamente adulto novamente, ou será que nunca fui? Criança, sim, sem limites, sem arrependimentos, sem pra quês, sem porquês. Fui criança, somente isso, e isso tudo. Segui a luz dos olhos que olham sem pudor, sem medo. Sentei e pedi carinho, me entreguei ao frio e viajei no espaço. Bati as asas de borboleta e em segundos voei sobre os sete mares. Não era pra tanto, eu ia à esquina, mas fui convidado a entrar, valia voar os sete mares. Olhando pelo buraco da fechadura pude ver tudo que compunha o recinto até então oculto, uma parte apenas do todo, fato, mas suficiente para preencher a mente eternamente vazia de uma criança. Não sabia eu que neste momento a porta já estava aberta, e que aquela imagem que se movia lentamente já era pra mim. Ora nada, ora tudo, era o que se via do buraco da fechadura. Eu não queria entrar, queria ficar ali, o frio não mais me atormentava, o calor dos olhos preenchia o corpo de luz. Fui encantado pela sutileza do movimento, era um ballet cauteloso, medido, comedido, e em busca da melhor apresentação o corpo alinhava-se inquieto, inseguro, porém firme em sua decisão: não cessaria a apresentação, não agora!!! Poderia ficar ali o dia inteiro, parado, observando, sentindo tudo aquilo, vendo, vendo... vendo movimento, ação, reação, preparação, confusão, solidão, chão... até ele me fez sorrir. Não pude ver os pés de quem o tocava, mas pude ver onde os pés dançavam. Fui criança voando, sentado, observando, fui criança de verdade, criança feliz. E quanto mais eu via, quanto mais ouvia daquele soneto mudo, mais meu coração de criança se enchia de alegria, eu queria traquinagem, queria trela, queria brincar. Mas eu queria mesmo era ouvir uma música, eu iria lá mais uma vez, só pra escuta uma música... Psiiiu, não pode pedir, ou pode? Num sou criança? Canta aquela pra mim?! Pode ser Non, Je Ne Regrette Rien, conhece? Por 13 breve segundos pude escutar outra voz que era a mesma, fui tão feliz nos 13 segundos que queria mais quantos fossem permitidos, quando puder ouvir novamente quero outra voz cantando. Eu gosto de música, gosto de canção, e enquanto via esses movimentos era como se houvesse som por toda parte. No corpo o sorriso começava no pé, preenchia cada poro e subia até arrepiar os cabelos, verdade, isso tudo em 13 segundos, 13 segundos de outra voz, imagina 13 segundos de canção? Sim, mas de onde veio essa criança? Já sinto-me novamente tolo por sê-la... não tem mais dança, não tem mais canto, volto pra casa na mesma velocidade daquele encanto, com o bico amarrado e olhos baixos, entro pelo buraco da minha fechadura e na ultima batida de asa, na hora de cessar o encanto, deixo ficar no buraco da fechadura uma parte do vôo que agora brilha incessante luz néon nos meus olhos. Os olhos são meus, e eu não paro de olhar, é pra lembrar que um dia fui borboleta e soube voar, voei os sete mares e na porta de casa, no frio, eu fui parar, olhei mais bela cena, ouvi mais belo som, senti mais belo cheiro e tive que voltar. No caminho de volta vim em linha reta, não queria demorar, raspei a ponta das asas no buraquinho da porta e ali mesmo me deixei encostar, com o bico amarrado, o corpo todo emburrado levantei pra deitar, na escuridão que reinava sentia por traz uma luz que constante e inconstante teimava a brilhar, virei e vi minhas asas, asas de borboletas que me puseram a voar, brilhava ela a luz néon que me pos novamente a sonhar, com sorriso sincero, pleno e satisfeito segui ao altar, esperarei quanto for, sentado aqui nesta escada, mas com este momento eu quero casar.

3 comentários

  1. Ser criança é isso! É espreitar fechaduras, buracos, intimidades com naturalidade. Dançar muitas danças, ouvir vozes e sentir arrepio. Viajar sete mares num instante, ser borboleta, barco, bode, o que quiser!
    Que vislumbre este vôo! Tu, conseguindo transformar tudo em poesia. Raro! Beijos.

    Posted on sábado, 24 janeiro, 2009

     
  2. renata Said,

    muito bom, amei, parabéns! :D

    Posted on sábado, 24 janeiro, 2009

     
  3. Nathália Said,

    O AUTO-RETRATO

    No retrato que me faço
    - traço a traço -
    às vezes me pinto nuvem,
    às vezes me pinto árvore...

    às vezes me pinto coisas
    de que nem há mais lembrança...
    ou coisas que não existem
    mas que um dia existirão...

    e, desta lida, em que busco
    - pouco a pouco -
    minha eterna semelhança,

    no final, que restará?
    Um desenho de criança...
    Corrigido por um louco!

    Mario Quintana (Apontamentos de História Sobrenatural)

    Liu, to aqui como prometido e estarei sempre. Adorei, parabéns!

    Posted on sábado, 24 janeiro, 2009

     

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