Pureza de Criança

Postado por Thiago de Paula On 12:22

Bom, isso foi o mais próximo que consegui lembrar de um sonho. Era mais ou menos assim...
Havia uma criança no centro da sala, sob a luz forte que vinha de cima, uma luz pálida, cheia de mofo. No chão, a criança despertava. Sentindo o cheiro da terra lentamente abria os olhos, estes rejeitavam a claridade e recusavam se abrir. Contra sua vontade, os olhos foram forçados e enfrentar a luz pálida e logo se voltaram ao chão em busca de proteção. Seu corpo nu sentia por inteiro o cheiro da sala úmida, quente, abafada, e produzia em cada fresta de seu corpo gotículas de suor. Aos poucos elas a possuíam, inundavam seu corpo com aquele líquido transparente, cheirava a cansaço.
A criança estava presa entre quatro paredes jamais vistas, aliás, sequer via as paredes sob aquela luz forte que desenhava sombras em direção ao solo. Chão de terra batida, terra vermelha, terra molhada, de suor. No ar, partículas minúsculas de algo que podia pairar sobre a luz e o espaço escuro possuíam a sala com tranqüilidade. Curiosa tranqüilidade. A mesma tranqüilidade sentia-se no som, não havia som, nada se movia, nem mesmo as partículas no ar.
A criança sequer pensava em pensar. Olhava agora a escuridão, e esta lhe despertou a curiosidade. Seus sentidos vieram à tona. Dois pés apoiaram o corpo e o fizeram levantar. Marcando o chão de umidade e sal, os dois pés se alternaram ao segurar o peso do corpo levando-o á escuridão.
Pupilas dilatadas, forçando a entrada de luz, miravam o que não podiam ver. Foi quando duas mãos pequeninas se puseram a frente, os olhos se fecharam e seguiram o suor até a ponta dos dedos. Seus olhos agora tocavam a parede de pedras disformes e molhadas. Um líquido frio e pegajoso escorria por entre as curvas e relevos da parede, enquanto seus dedos buscavam conhecer aquele novo mundo.
Um passo a frente e seus olhos viram uma brisa suave sair por uma fresta na parede. Seu corpo se encolheu a fim de alinhar o rosto àquela brisa. Estacionada, a criança agora sorria pela primeira vez ao sentir a brisa tocar seu rosto. Era fria, calma e doce.
A criança aproximou o rosto da fresta tentando enxergar a luz e o que tinha além daquela parede. Sentia o cheiro doce cada vez mais perto, seu rosto agora tocava o liquido pegajoso e frio que descia em direção aos seus pés. Seus olhos se espremiam buscando um foco, um pequeno filete de luz que viesse de fora dali.
Sem conseguir mais que um colorido cheiro doce, seus dedos buscaram de imediato a fresta. Forçando a unha sensível e frágil contra aquela barreia, a criança foi tentando abrir espaço. Tentava de todas as formas ampliar o espaço entre as pedras para que pudesse sentir o ar e ver qual mistério guardava aquele cheiro doce e colorido.
Já sem forças, o corpo de criança pesa sobre o chão molhado. Suas costas tocam aos poucos as pedras pontiagudas até se recostar completamente e pesar a cabeça sobre o peito. Dos seus dedos, em carne viva, sua vida escorria aos poucos. Sangue, luz vermelha sobre o chão de terra batida. Os líquidos se misturavam, a terra sorria.
Repousando a cabeça em uma pedra, a criança escuta a brisa cantar em sua orelha, ela fecha os olhos tenta imaginar de onde viria o cheiro doce que a refrescava. Um mundo de cores e formas a possuiu. Tudo que ela podia imaginar foi visto por traz das pálpebras molhadas e salgadas. Novamente ela sorriu.
Ao abrir os olhos, as pupilas se depararam com a luz no centro da sala. Havia agora mais partículas no ar, e elas se moviam criando formas sob a luz. O som irritante de sua cabeça funcionando dizia que ali, sob aquela luz, qualquer coisa poderia nascer. E como se nada tivesse feito na vida, seu corpo se moveu harmoniosamente em busca do equilíbrio sobre os dois pés. No primeiro passo o corpo para. O toque reconhece o solo molhado. Seu corpo se curva em direção ao solo, seus dedos, feridas abertas, forçam o solo a fim de arrancá-lo. Segundos depois, um volume satisfeito de terra vermelha na palma da mão. Terra molhada, fria, sangrando.
De costas para a luz, a criança busca novamente a brisa na parede. Com a mão livre a encontra. Da terra na sua mão fez uma massa e retirando pequenos pedaços tapava aos poucos o buraco até não restar mais brisa, nem luz, nem cheiro doce.
O rosto se comprimia em um sorriso puro, satisfeito. As pupilas se dilataram ao encontrar a luz no centro da sala. Seus pés, de par em par, marcavam o chão vermelho em direção ao centro da sala que a cada segundo se tornava mais abafada.
Já no centro, com os olhos fechados, sob a luz, seus joelhos encontram o chão. A poeira seca e amarga foi de encontro ao seu rosto. Seus olhos reagiram e se abriram com a proteção da sombra da sua cabeça. Logo notaram o chão. Com tinta vermelha, rabiscava formas e sentimentos no quadro sobre seus pés e sempre que apagava espalhava pó, que se acumulava sobre seu corpo até que não se poder mais ver a criança.
Por um tempo só se via poeira e luz se misturando no espaço vazio, até que baixando a poeira pode se ver aos poucos a criança. Cabeça baixa e olhos vidrados, imóveis. A boca paralisada, ensaiando um sorriso. O tronco reto em direção a luz com um par de mãos na cintura. Os joelhos apoiando o peso do corpo. E em sua frente, ali, onde seus olhos focavam a ultima imagem vista, uma flor doce no chão de terra batida, no chão vermelho, vermelho de sangue.

4 comentários

  1. Não sei bem oq comentar...
    nunca li algo parecido, nunca vi vc escrever assim.
    um texto lindo, que não tem oq falar...eu simplesmente senti, mas não sei extamente oq.
    =))

    te amo
    bjo

    Posted on segunda-feira, 06 outubro, 2008

     
  2. Paula Said,

    :O mt massa!sem palavras Thi.


    =***

    Posted on segunda-feira, 06 outubro, 2008

     
  3. A fuga e o retorno da criança à luz... Talvez ela tivesse pensado, num certo momento, que a brisa lhe daria o que ela procurava inconscientemente, assim que entrou na escuridão. Mas posteriormente ela não apenas vê, ela enxerga (e imagina), ela é forte e sabe que olhar para a luz chega a doer quando passamos muito tempo de olhos fechados. Mas é sob esta mesma luz dolorosa que podemos ver cores, formas, VIDA. E uma vez consciente da sua condição, finalmente não há mais dor diante do pó da sala quente, úmida e vermelha. E isso é poesia pura, força, intensidade, em contrapartida, a delicadeza. Parabéns pelos sentimentos. À propósito: "Sonho parece verdade quando a gente esquece de acordar." (Teatro Mágico)
    :D

    Posted on segunda-feira, 06 outubro, 2008

     
  4. robsonvg Said,

    eu pensei em explicar oq eu entendi
    e tudo mais...
    mas dai nao teria graça!
    abs
    se cuida!

    Posted on segunda-feira, 06 outubro, 2008

     

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